A Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo nos recorda a fé apostólica como o fundamento da comunidade do Ressuscitado, a Igreja querida e amada pelo Filho do Deus vivo. Não estamos prestando homenagens a Pedro e Paulo, como se fossem mitos fundadores de uma religião, mas homens concretos que testemunharam, não apenas em quem acreditavam, mas deixaram claro o modo como acreditaram.

A experiência de fé de Pedro e Paulo e, naturalmente, de toda a Igreja ao longo de sua história, tem como fundamento o encontro com a pessoa de Jesus e se edifica no seu seguimento. Esse encontro, porém, não é fruto de uma iniciativa humana: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi nem sangue nem a carne que te revelaram isso”; pois não é o ser humano que busca a Deus, mas é Ele mesmo que vem ao encontro da sua criatura por excelência, quando a chama à existência e à plenitude de vida.

O evangelho de hoje nos apresenta um momento imprescindível no caminho do seguimento de Jesus, isto é, a decisão de conhecê-lo mais profundamente. Portanto, a pergunta que Jesus dirige aos discípulos, de forma didática em dois momentos, marca decididamente esse caminho. Fica claro que não basta apenas dizer o que os outros afirmam: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” mas é preciso também dizer o que, a partir da convivência com Ele, conhecemos sobre a sua pessoa e missão. A resposta deve ser pessoal, o que não significa intimismo ou espiritualismo individualista, uma vez que ninguém conhece a Jesus se não for capaz de acolher o testemunho da experiência dos outros que, por sua vez, também fizeram o encontro com Ele, na comunidade, a Igreja querida e edificada pelo próprio Senhor; é ela o lugar por excelência do encontro e do conhecimento da sua Pessoa. Pois à medida que a convivência com Ele vai transformando os seus discípulos de todos os tempos, é que se aprofunda o conhecimento de quem Ele é verdadeiramente.

 

Em Mateus a pergunta de Jesus é: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?" É significativamente diferente de Marcos (8,27) e Lucas (9,18) que formulam: “Quem dizem os homens que eu sou?”. A resposta de Mateus é coerente: “Dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda que é Jeremias ou algum dos profetas”. A pergunta e a resposta não se referem diretamente a Jesus, mas àquele personagem enigmático já anunciado no Antigo Testamento cuja vinda se aguardava (O Filho do homem: Dn 7,13). Por conseguinte, a resposta dos discípulos é coerente com as mais variadas expectativas do povo. Fazendo uma retrospectiva cronológica, Pedro indica o mais recente: João Batista, o profeta que eles mesmos conheceram, aquele que assumiu características escatológicas, na mesma linha do profeta Elias, que era o profeta aguardado como precursor do Messias (Mt 17,10-11), chegando até Jeremias, o profeta sofredor do tempo do exílio que anunciava a Nova Aliança firmada no coração (Jr 31,33); por fim, não se sabe ao certo, mas se pensava que era algum dos profetas já conhecidos que fosse o Messias esperado.

Até então, tudo muito lógico segundo as “especulações teológicas” do tempo e da tradição. Contudo, Jesus lança o grande desafio da fé: “E vós quem dizeis que eu sou?”. A resposta de Simão Pedro, certamente em nome do grupo: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” contém duas afirmações paradoxais. A primeira em continuidade com as expectativas do Antigo Testamento e da tradição judaica, isto é, Jesus é o Messias anunciado pelos profetas e esperado pelo povo; mas a segunda afirmação: “o Filho de Deus” é totalmente dissonante, incoerente e escandalosa, isto é, o Messias ser filho de Deus, e, portanto, Deus. Aqui está a diferença basilar entre o Cristianismo e todas as outras religiões, sobretudo o Judaísmo. Não é tanto afirmar que Jesus é um profeta, um messias, mas é crer que Ele é o Filho de Deus; isso extrapola todas as concepções e expectativas religiosas. Só a fé em Jesus torna-se rocha para suportar esse “terremoto”, proveniente dessas mudanças fundamentais do princípio arquitetônico da fé judaica.

 

Jesus ao chamar Simão de Kephas (aramaico traduzido para o grego petra, português rocha, pedra) não está apenas fazendo uma mudança de nome, mas inaugurando uma nova mentalidade, um novo modo de conceber o povo de Deus, é a mesma palavra que se encontra no ensinamento de Jesus sobre o modo autêntico de viver como seu discípulo: “Todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha (petra)” (Mt 7,24s). Portanto, a fé se expressa na adesão à palavra de Jesus e no compromisso de vive-la, pois reconhece-se nela a manifestação da vontade de Deus.

Consequentemente, se a pedra representa a fé, esta deve ser a identidade de quem crê. Não há separação entre o crer e o ser discípulo. Caso contrário, a casa estaria edificada sobre a areia, destinada à queda. 

Jesus declara que a fé unifica numa mesma pessoa o seu ser e o seu crer: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Destarte, a fé não é algo que temos, mas algo que nos faz ser, mais que uma eficácia formativa é uma força performativa. E, portanto, como filhos do Eterno, somos destinados à eternidade, porquanto tudo aquilo que se liga na terra se liga no céu, e tudo o que se deliga na terra se desliga no céu. Feliz é aquele que sustentado na rocha da fé, se transforma em corpo de Cristo (Igreja), o rochedo da nossa salvação.

Celebrar essa solenidade é testemunhar a fidelidade de Jesus a quem Ele mesmo constituiu a sua Igreja; Igreja feita de pessoas humanas com suas fragilidades, pecados e misérias, mas com uma certeza, ela é de Jesus, por isso, nem as portas do inferno prevalecem sobre ela. Crer nisso é fundamental para apoiar-se na rocha e não escorregar na superficialidade do lodo que muitas vezes teima em desfigurar essa pedra.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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