Reflexão - Sagrado Coração de Jesus - Lc 15, 3-7

“Só se arrisca quem sabe o valor que tem”

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus não é uma festa particular de um determinado grupo motivado por uma bela devoção, mas este culto ao Coração de Jesus é expressão genuína de fé no amor de Deus para com o seu povo. Pois o Coração de Cristo é símbolo de um amor sem reservas, capaz de dar a vida; é expressão de um Deus misericordioso que vem à procura do pecador para salvá-lo custe o que custar.

A liturgia da Palavra do Ano C ressalta as atitudes características desse amor misericordioso expressas na figura do Pastor que alivia o sofrimento, tem compreensão, age com compaixão, amabilidade e ternura (1ª Leitura).

Sem dúvida, uma das imagens simbólicas mais fortes no Novo Testamento para falar do múnus de único mediador e salvador de Jesus é o pastor, além de ser rica de significados e associações no Novo Testamento, evoca também uma longa e significativa tradição já presente no Antigo Testamento, onde a figura do Pastor foi utilizada tanto na literatura sapiencial (Sl 22) como na Tradição profética (Ez) para falar de Deus na sua solicitude para com o seu povo. Essa imagem do pastor perpassa toda a Escritura, do Gênesis ao Apocalipse. As raízes de Israel (Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó, Lia e Raquel) eram pastores; viviam sob tendas e se deslocavam de acordo com as exigências e necessidades do rebanho. Mergulhados na própria experiência, descobriam que Deus agia com eles como um bom pastor, vigia atento e amoroso.

 

É a partir dessa experiência dos pastores de Israel, que se passa a descrever o comportamento de Deus, o seu cuidado e solicitude para com o seu povo. É um Deus-pastor porque guia, nutre, defende, faz-se companheiro no caminho. É nesse horizonte religioso, nas suas várias dimensões (sociológica, política e cultural), que se insere a experiência por excelência do cuidado e do compromisso de Deus: o Êxodo, que não é apenas saída da casa da escravidão, mas também um longo processo de mudança do coração, através da experiência da travessia do deserto rumo à Terra prometida.

A primeira vez que a Bíblia chama Deus de Pastor é em Gn 48,15s. Jacó, a essas alturas velho, experiente, desce ao Egito com os seus filhos para lá sobreviver por causa da fome, e abençoa os dois filhos de José, nascidos no Egito: “Que o Deus diante de quem caminharam meus pais Abraão e Isaac, que o Deus que foi meu pastor desde que eu vivo até hoje...”  Jacó declara que Deus foi para ele sempre um pastor, um companheiro de viagem (cf. Gn 28,15).

 

Ainda que no evangelho de hoje, Jesus não atribua diretamente a si a imagem do pastor, as suas atitudes, sobretudo para com os publicanos e pecadores, revelam o seu coração de pastor, pois evidenciam as marcas fundamentais do seu ser e agir. A lógica do amor supera a lógica da razão: “Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa em nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu até encontrá-la?” Diante dessa pergunta, o bom senso responderia não, pois colocar em risco noventa e nove por causa de uma não tem sentido. Ademais, não é possível admitir de forma absoluta a finalidade da busca: “até encontrá-la”; talvez não aconteça. Contudo, o pastor se rege pela lógica do amor gratuito. Cada ovelha é mais do que um número contabilizado; é uma realidade singular com a qual se estabelece uma relação de valor incalculável, não garante dividendos, mas alegria que transcende pessoas, situações, circunstâncias, pois alcança o céu. A própria experiência humana tem provado que não e possível contabilizar as pessoas que consideramos importantes e que amamos. Mesmo que sejam muitas, elas serão sempre singulares no nosso relacionamento, cada uma vale por si, não dependerá de um conjunto para ser mais ou menos importante. Assim é cada ser humano para o coração de Deus. Não somos elementos somados, mas filhos relacionados.

Por causa de uma certa presunção (pelagianismo), somos tentados a pensar que o sujeito da nossa conversão somos nós mesmos, que quando tomando consciência do nosso pecado, fazemos um esforço para mudar. Contudo, a parábola de hoje nos apresenta uma outra lógica, isto é, o protagonista da conversão não é o pecador, a ovelha perdida, pois sozinha no deserto não é capaz de retomar o caminho de volta. Mas é o pastor que a ama verdadeiramente, que vai ao seu encontro, que a busca sem se cansar, que se torna o sujeito imprescindível para o reencontro. Coloca-a nos ombros não para obrigá-la a voltar, mas porque certamente por ter se desencaminhado, está ferida, e, por si só, não pode caminhar. Não a coloca nos ombros para tirar-lhe a liberdade de voltar ou não, mas para garantir-lhe reencontrar o caminho para a vida.

O Coração traspassado de Jesus que hoje contemplamos de modo particular, é o coração do bom pastor que teve também seu ombro ferido ao carregar a cruz. É nesse coração e nesses seus ombros de Pastor, feridos por amor, que encontramos o caminho para a verdadeira conversão, fonte e garantia de alegria que transborda para a eternidade. Não se fala da alegria da ovelha, mas do pastor que compartilha com vizinhos e amigos. Contudo, só no final do capítulo, poderemos perceber que tudo aquilo que é de Deus é também para os seus filhos (“Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu” 15,31). Por conseguinte, a alegria do pastor é também a da ovelha, mas se estiver nos seus ombros e no seu coração.    

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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