“É na glória da cruz de Cristo que brilha o mandamento do amor (lava-pés); é no brilho dessa cruz que resplandece o sacramento do amor (Eucaristia); é no esplendor dessa cruz que podemos cumprir o pedido do Mestre: ‘fazei isto em memória de mim’ (Dir. da liturgia-CNBB, pág. 35). O Tríduo Pascal, ápice do ano litúrgico, coloca-nos de forma muito pedagógica e mistagógica diante e no núcleo de nossa fé; favorece-nos, através da oração contemplativa da celebração litúrgica, mergulhar e ser inundados pelo mistério da morte e ressurreição do Senhor, mas também é ocasião de discernimento para sabermos se estamos ou não tomando parte realmente desse Mistério. Não basta apenas crer que o Senhor morreu e ressuscitou, proclamando esta verdade na oração (Eucaristia), que Ele mesmo mandou fazer em sua memória. Mas é preciso, também, ser testemunhas dessa verdade, assumindo o serviço que Ele realizou e nos mandou realizar (“lava-pés”) a fim de que o mundo creia.

Se para nós “culto” e “serviço” têm significados diferentes, e, portanto, indicam realidades independentes, para a Sagrada Escritura usa-se a mesma palavra para referir-se a ambas situações (hebraico sharât: servir a Deus, adorá-lo 1Sm 3,1; servir o ser humano: 1Rs 19,21; grego doulein: servir a Deus Sl 71,11; At 7,7; serviço a pessoas Lc 15,29). Portanto, em Jesus, o serviço alcançou a sua expressão mais perfeita, pois glorificou o Pai, “que tinha colocado tudo em suas mãos”, fazendo a sua vontade; e, “amando os seus até o extremo”, prestou à humanidade o maior e imprescindível serviço que ela necessitava. A sua páscoa não se restringe ao momento de sua morte e ressurreição, mas é toda a sua passagem pelo mundo e compreende a sua saída e volta para o Pai. Por conseguinte, o êxodo de Jesus tem início com a sua encarnação, o seu despojamento: “Sendo Deus não se apegou a sua condição divina, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2,6), e alcança o seu ponto alto na cruz, onde entrega tudo (vestes, perdão, mãe, sangue, espírito). A ceia e o lava-pés resumem todo o itinerário pascal do Verbo encarnado, que existindo desde toda a eternidade no seio do Pai, entrou na nossa história e armou sua tenda em nós (cf. Jo 1,14); a sua páscoa é culto e serviço.  

 

 

 

 

 

 

 

Celebrar a Ceia do Senhor é estar disposto a aprender as grandes lições do autêntico serviço (a Deus e ao próximo). Contudo, não basta apenas estar na ceia “do Senhor”, é preciso está na ceia “com o Senhor”: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Diante da resistência e incompreensão de Simão Pedro de não querer que Jesus lhe lavasse os pés, o Mestre declara que não pode ser seu discípulo quem não aceita ser servido por Ele, pois consequentemente não aprenderá com a vida o serviço aos outros. A expressão “não terás parte comigo” (grego ouk echeis meros met’emou: não tens parte em mim, comigo, depois de mim) resume o testamento de Jesus, isto é, deixar ser servido por Ele é herdar a sua vida, a sua missão, pois o seu discípulo continuará a fazer no mundo, o que aprendeu do Mestre. Não basta simplesmente saber o que Ele  mandou fazer, mas é preciso aprender com Ele o modo de fazê-lo: “Vós me chamais mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu sou...Se eu vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros”. Aqui está a grande novidade do serviço de Jesus, a sua marca fundamental, livre de qualquer ambiguidade ou demagogia. Ele não nega ser Mestre e Senhor, nem mesmo rejeita que os discípulos o chamem assim. Pois, se um servo lava os pés do seu senhor, não há nada de extraordinário nisso, nenhuma lição se pode aprender desse gesto, é sua obrigação. Mas quando o Senhor lava os pés do servo, toda lógica humana e natural estremece, o novo irrompe dando-se uma lição inédita. Jesus não abandonou o seu senhorio ou autoridade, pois os recebeu do Pai: “Todo poder me foi dado no céu e na terra”.

 

 

 

 

 

 

Ao assumir a condição de servo, Jesus não se tornou impotente, fraco, incapaz, mas pelo contrário, manifestou-se nele o poder de Deus, do seu amor que vai até o extremo, pois é “próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua onipotência” (S. Tomás de Aquino). Quando a autoridade perde a sua potente capacidade de servir, enfraquece e apela para a violência do autoritarismo.

Apesar de ter tido os pés lavados por Jesus e estar presente à ceia, Judas não aprendeu o exemplo do Mestre, não se deixou purificar: “Vós estais puros, mas não todos”. A impureza de Judas significa justamente essa sua incapacidade de reconhecer que o seu Senhor não é autoritário, mas servidor, que não divide com os seus discípulos armas a fim de que matem para se defender, mas os instrui com a sua palavra (“Vós já estais limpos por causa da palavra que vos fiz ouvir” Jo 15,3) a amar sempre, inclusive os inimigos.

A cada Eucaristia, o Senhor nos convida a sentar-se com Ele à mesa, alimenta-nos com sua palavra, e reparte conosco o seu corpo e sangue, a sua vida entregue como serviço ao Pai e à humanidade, a sua herança; contudo, não basta estar na ceia do Senhor, é preciso estar na ceia com o Senhor, tendo parte com Ele, assumindo a sua herança de amor e fidelidade aos extremos, eis o autêntico serviço.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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