Reflexão - IV Domingo do Advento - Lc 1, 39-45

“Advento: a tão esperada e surpreendente visita”

Geralmente pensamos o advento como tempo de espera, de preparação, de aguardo. Mas a palavra pode ser também compreendida como chegada, visita. Muitas de nossas experiências são marcadas profundamente por este aparente paradoxo: esperar por aquilo que já está presente. Para uma mãe que aguarda o seu filho nascer, a expectativa é grande, ela deseja ansiosamente que este momento chegue. Mas o seu filho tão aguardado não virá de longe, não é um ausente, pois está já dentro dela. Um doente que em alguns momentos faz a experiência da angustiante solidão de um quarto de hospital ou mesmo em casa, não vê a hora de ser liberado o momento da visita para receber os seus parentes, amigos e conhecidos. Contudo, só será capaz de suportar a ausência se a esperança de ver alguém chegar for fortalecida pela certeza de ser amado; tal experiência deve ser sempre cultivada no presente, ainda que se viva em expectativa.

Como sabemos, Lucas com peculiar maestria escreveu o seu evangelho a partir do testemunho de pessoas que vivenciaram muitos dos acontecimentos que ele relata (“Conforme no-los transmitiram os que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da Palavra” Lc 1,2).

 

Porém, o seu valioso trabalho não foi recolher fotografias para compor um álbum, pois ficaria apenas com a aparência dos fatos, nem muito menos memorizar informações para depois transcrevê-las de modo frio e mecânico.  Mas cada cena apresentada pelo evangelista é verdadeiramente algo a ser contemplado, e não simplesmente uma ideia para ser assimilada. Portanto, a visita de Maria a Isabel nos coloca num horizonte vastíssimo, que transcende as regiões montanhosas da Judeia e alcança toda a história de Israel e todas as expectativas da humanidade. O tema da visita de Deus marca a grande expectativa do povo de Israel no Antigo Testamento. Porém, o Deus que vem visitar o seu povo está sempre presente cuidando do seu rebanho (Ex 3,16: “De fato, vos tenho visitado...”). No Novo Testamento, o tema retorna com mais força ainda, pois testemunha que a visita de Deus se dá com o Profeta Jesus: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo” (Lc 7,16).

A cena da visitação nos apresenta as características dessa visita de Deus a seu povo. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, “visitar” é mais do que “ir ver”. Dentre as várias possibilidades de tradução (hebraico: paqad; grego episkeptomai), o verbo traduzido por visitar tem conotação de cuidar, intervir em benefício de alguém, verificar, escolher. Portanto, eis as características da visita (presença cuidadora) de Deus evidenciadas no encontro das duas mães:

“Maria pôs-se a caminho às pressas”: Deus vem ao nosso encontro constantemente. Ele mesmo toma a iniciativa e abre caminho, não espera que o acaso favoreça, mas decididamente (às pressas) não perde tempo, pois todo tempo é tempo fazer-se presente. Ainda que nos tire do nosso comodismo, nos desperte do nosso sono para percebermos a sua presença.

“Maria saudou Isabel...e Isabel ficou repleta do Espírito Santo”: Não se diz o conteúdo da saudação de Maria, pois saudação (desejo de bens) não se reduz a palavras bonitas, mas exige atitudes de solidariedade, pois não só Isabel se alegra ao ouvir, mas a criança no seu ventre testemunha a presença Daquele cuja vinda ele mesmo anunciará.

 

“Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite”: Se a visita não for expressão de gratuidade, tornar-se-á uma obrigação que esvazia e torna pesado o encontro. A visita de Deus é sempre surpreendente, apesar de desejada, contudo não pode ser exigida. Será sempre um grande bem oferecido, jamais um favor atendido. 

“Bendita és tu (mãe). Bendita a que acreditou (crente)”. As duas grandes bem-aventuranças de Maria, proclamadas por Isabel, sintetizam o que representa o seu ser “Serva do Senhor”. Como Mãe, prestou o grande serviço a Deus, acolhendo-o no seu ventre, e nos seus braços (viveu sob seus cuidados: visitar é “ter cuidado com”), como Crente presta o grande serviço à humanidade, que vive momentos de solidão por falta de fé.  Pois só a fé testemunha a certeza de uma presença: “É uma posse antecipada do que se espera” (Hb 11,1).

“Maria exclamou: Minha alma engrandece... Meu espírito exulta...” Visita é sempre motivo de alegria, pois a presença que nos preenche, ajuda-nos a fazer a experiência da superação da solidão, o que nos leva naturalmente à gratidão. Contudo, a gratidão não pode ser apenas ao visitante pela sua gentileza e cordialidade. Se assim o fosse, tudo estaria terminado com uma despedida, retornando à situação anterior de vazio. Mas a vivência de uma verdadeira visita permite ao visitante e ao visitado unirem-se de tal forma que os bens ora compartilhados tornam-se motivos para a grande gratidão. Gratidão perene Àquele que quer ser o nosso permanente hóspede e, portanto, mesmo na ausência de todos, alegra-nos com a sua presença. Pois nos favorece sempre o seu advento.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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