Reflexão - Ascensão do Senhor - Lc 24, 46-53

“De Betânia para os céus, passando pela cruz.”

Na celebração da Ascensão do Senhor, a Igreja renova a sua fé na vitória de Cristo e confirma a sua esperança de que o seu futuro já está garantido, isto é, no Cristo exaltado à direita do Pai, a vida em plenitude já foi alcançada. Mais do que um deslocamento espacial (mudança de lugar geográfico), a verdade da Ascensão evidencia ainda mais o compromisso permanente do Deus que liberta o seu povo peregrino nas estradas do mundo. A libertação do Êxodo alcança a sua realidade definitiva no Mistério de morte e ressurreição do Filho de Deus, cuja ascensão é anúncio da entrada na definitiva Terra Prometida, a Pátria para onde todos nós somos chamados. Assim como Moisés foi colocado à frente do povo libertado rumo à Terra da Promessa, agora o Cordeiro imolado está de pé, portanto foi elevado, e com Ele, todos nós somos conduzidos para o alto.

A Ascensão é a proclamação solene de que o Crucificado não é o derrotado, aprisionado no sepulcro, mas o vitorioso ressuscitado: “Humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o sobrexaltou grandemente” (Fl 2,8-9).

Ao concluir o seu evangelho, Lucas apresenta a cena da Ascensão do Senhor recordando algumas coisas fundamentais presentes ao longo do seu escrito. Antes de tudo, fazendo referência a Betânia, como o lugar da elevação de Jesus, recorda a relação intrínseca que há entre esta entrada de Jesus nos céus e a sua entrada messiânica em Jerusalém na iminência da sua morte (Lc 19,28-38). São os dois aspectos fundamentais do Mistério Pascal: Jesus que desce o Monte das Oliveiras, e de lá será elevado depois da ressurreição. Contudo, entre a Betânia da descida e aquela da subida, está o Gólgota da cruz.  

Para Lucas, os fatos não são capazes de ser compreendidos por si mesmos, mas  à luz do encontro da Escritura com a Palavra, é que a mente e o coração se abrem para acolher a revelação dos desígnios de Deus e compreender a dimensão mais profunda da realidade. Por isso, tudo aquilo que em Jesus se realiza é cumprimento das Escrituras: “Assim está escrito que o Messias devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia”.

 

 

Já no início do seu evangelho, Lucas tinha afirmado solenemente que a Escritura não é apenas anúncio de promessas para um amanhã indefinido, mas em Jesus, ela encontra o seu hoje: “Enrolou o livro... Então começou a dizer: ‘Hoje realizou-se essa Escritura que acabaste de ouvir” (Lc 4,20-21). Assim como todos na sinagoga davam testemunho Dele, agora na Ascensão, são os seus discípulos que serão as suas testemunhas.

Na Ascensão do Senhor, tudo aquilo que Jesus fez e ensinou é confirmado como herança e missão para os seus discípulos: “E que em seu nome fosse proclamada a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações”. O perdão dos pecados, de fato, é um dos temas mais caros ao evangelista. Perdão como manifestação da misericórdia, porém a conversão representa o compromisso de quem está verdadeiramente disposto a fazer essa experiência do encontro com a misericórdia. O próprio João Batista, no terceiro evangelho, é apresentado como o profeta do Altíssimo cuja missão é “transmitir a seu povo o conhecimento da salvação, pela remissão de seus pecados” (Lc 1,76-77). Perdão e conversão constituem, assim a vivência mais profunda da misericórdia. Por isso, a palavra corajosa do filho de Zacarias confirmará a sua missão: “Ele dizia às multidões: Produzi, pois frutos que provem a vossa conversão” (Lc 3,7-8). Jesus, por sua vez, pleno do Espírito Santo, inicia a sua vida pública proclamando que a sua missão é, também, anúncio de um ano de graça do Senhor, quando se realiza a remissão dos pecados (Lc 4,18s). A sua própria práxis é caracterizada por uma atenção especial aos pecadores; é acusado não apenas de recebê-los, mas de fazer refeição com eles, isto é, compartilhar da vida. Compartilhar da vida dos pecadores cria as condições para o grande apelo de conversão; Jesus não faz uma exigência moralista que oprime e esmaga, mas a sua presença misericordiosa se torna força de mudança no coração dos pecadores. A misericórdia põe o pecador de pé, inicia-se nele um movimento de ascensão: “Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: ‘Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo” (Lc 19,8).

 

 

Na Ascensão, Jesus confia a própria missão aos seus discípulos, que agora são investidos de uma responsabilidade de testemunhas, isto é, de quem anuncia uma experiência vivenciada e não apenas uma informação recebida. Contudo, o Mestre não se despede deles, mas os abençoa: “Erguendo as mãos os abençoou”. No mesmo contexto do capítulo 24, Lucas relata que “estando à mesa, Jesus tomou o pão e o abençoou, partiu-o...” (24,1-35). Tal gesto foi decisivo para que os discípulos reconhecessem que era o Senhor. Abençoar, partir e entregar reúnem as ações fundamentais da Eucaristia, que é dom de Deus, mas também missão repartida e entregue. Na Ascensão, Jesus repete o mesmo gesto, não mais sobre o pão, que abençoado se transforma no sacramento da sua presença, mas sobre a comunidade, que abençoada por sua presença, torna-se também seu sinal visível no mundo. O verbo utilizado em ambos os contextos é o mesmo (abençoar, bendizer: eulogein).

Por conseguinte, a Ascensão é o momento no qual a comunidade das testemunhas do ressuscitado é abençoada, isto é, transformada em seu Corpo, pois compartilha da sua mesma missão. Eis o motivo de grande alegria: “voltaram a Jerusalém com grande alegria”. Assim, como no encontro com o Ressuscitado (no cenáculo), os discípulos foram tomados de grande alegria, agora enchem-se de alegria na expectativa de que se cumpra neles a promessa: “Sereis revestidos da força do Alto”.

Toda celebração eucarística é atualização desse mistério: pela invocação do Espírito Santo (epíclese), o pão abençoado transforma-se em Corpo de Cristo, e a comunidade que dele se alimenta, é abençoada a fim de que se transforme no seu Corpo, para prolongar na história a sua missão salvadora.   

Celebrar a Ascensão do Senhor é renovar a consciência de que Ele nos abençoa, isto é, nos transforma em seu Corpo e nos reconfirma na missão. Celebrar o Pentecostes, no próximo domingo, é recordar que para realizar essa missão nos foi dada uma força do Alto; não somos nós os protagonistas da missão, pois não estamos sozinhos. Ele não nos abandona, mas nos leva consigo.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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