Reflexão - V Domingo da Quaresma - Jo 8,1-11

“Quando há mais pecadores do

que pedras, basta o perdão.

O evangelho do 5º Domingo da Quaresma, mais do que despertar em nós sentimentos de indignação diante de quem hipocritamente condena os outros sem reconhecer-se também pecador, coloca-nos frente a frente com a nossa verdade. Muitas vezes exigimos que a justiça se cumpra nos outros, mas que a misericórdia triunfe quando somos julgados; padecemos de uma esquizofrenia que nos leva a pensar que a verdadeira justiça e a autêntica misericórdia existam separadamente. Na Sagrada Escritura isto é impossível. Sobretudo nos ensinamentos e na prática de Jesus, justiça e misericórdia nem mesmo se distinguem. Pois Deus não poderia ser coerentemente justo se não fosse sumamente misericordioso.

Retomando o tema veterotestamentário da justiça, Jesus recupera o seu primordial sentido, isto é, ser justo é fazer a vontade de Deus. Portanto, a justiça do Reino de Deus excede a justiça distorcida e parcial dos escribas e fariseus, que buscam sempre, num fundamentalismo escriturístico, motivos para condenar: “Na Lei, Moisés nos ordena lapidar tais mulheres”. Por outro lado, Deus, por ser justo, isto é, para cumprir a sua vontade, numa explosão de amor, “entregou o seu Filho único não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17).

Jesus, nesse episódio, desmascara uma “justiça” que é falsa, pois é distorcida na sua formulação e significado para favorecer apenas a alguns. De fato, a Lei mandava punir as pessoas que adulterassem. Porém não se comete adultério sozinho. Desta forma, levando apenas um para o julgamento não se cumpria a Lei, mas cometia-se uma injustiça, pois a Lei era clara: “O homem que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua cúmplice” (Lv 20,10; Dt 22,22). Observe-se que na Lei, o primeiro imputado é o homem, a mulher é dita apenas cúmplice. Os fariseus e escribas, conhecedores da Lei, deveriam saber disso, mas são os primeiros a fazer injustiça para com a própria Lei, pois distorcendo-a, afirmam que a Lei dada por Moisés ordena lapidar tais mulheres, sem nenhuma menção aos homens implicados no delito.

 

Jesus poderia ter refutado esta interpretação, desmoralizando-os diretamente, citando o artigo completo da Lei. Contudo, prefere usar de misericórdia até mesmo para com os injustos, e, abaixando-se, como fez ao encarnar-se (Fl 2,7-8), escreve na areia. Este gesto parece enigmático, mas poderia ser um modo expressivo de dizer aos acusadores que algo estava faltando naquela Lei que eles citaram, quem sabe até mesmo apelando para que eles próprios reconhecessem o impedimento objetivo para levar adiante o julgamento. O seu silêncio favorecia-lhes um tempo necessário para ressoar no seu íntimo o que eles tinham omitido, pois não se poderia fazer justiça diante de uma lei incompleta. Em um dos núcleos fundamentais da Lei, afirma-se: “Não cometereis injustiça no julgamento... Guardai, pois, todos os meus estatutos e minhas normas e praticai-os. Eu sou Javé” (Lv 19,15.37).

Contudo, o silêncio misericordioso de Jesus é rejeitado pelos juízes de plantão, que não são capazes de ouvir senão a própria voz e exigem que o Mestre se pronuncie. Fale ou para absolver a mulher, e assim, terem motivo de acusá-lo como transgressor da Lei, ou que a condene, para que ele mesmo seja condenado pelo povo, que contava sempre com a sua compaixão.

Diante da insistência de levar adiante um julgamento injusto, Jesus apela mais uma vez para a justiça da Lei: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a tirar-lhe a pedra!” A punição com a morte exigia que além do julgamento em base a um depoimento verídico e seguro, as próprias testemunhas executassem o apedrejamento: “A mão das testemunhas será a primeira a fazê-lo morrer, e depois a mão de todo o povo” (Dt 17,7). Com esta ordem, Jesus estava propondo o cumprimento justo da Lei. Portanto, quem lançaria a primeira pedra, a não ser a primeira testemunha do pecado? Isto é, no caso do adultério, certamente era aquele que o cometeu, como diz o salmista com muita honestidade: “pois reconheço minhas transgressões e diante de mim, está sempre meu pecado” (Sl 51,5). Este salmo é atribuído a Davi, quando o profeta Natã foi a sua casa denunciar o adultério que tinha cometido com Betsabeia, a mulher de Urias (2Sm 11-12). Portanto, a primeira testemunha do pecado é o próprio pecador. A retirada silenciosa dos acusadores, a começar pelos mais velhos, confirma a hipocrisia do julgamento. Se ao inclinar-se a primeira vez para escrever no chão, Jesus denuncia que a Lei está incompleta, agora inclinando-se mais uma vez, reitera o ensinamento do profeta Jeremias que diz: “Todos os que te abandonam serão envergonhados, os que se afastam de ti serão escritos na terra, porque eles abandonaram a fonte de água viva, Javé” (Jr 17,13).

 

Permanecendo apenas Jesus sozinho com a mulher acusada de infidelidade, o evangelista nos faz lembrar Javé que não se deixa vencer pelo pecado da sua esposa infiel, mas porque a ama, “vai seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração” (Os 2,16). E apesar de ser o único absolutamente a poder atirar a pedra, não o fez, pois age como o Pai que diz: “Meu coração se contorce dentro de mim... Não executarei ardor da minha ira... Porque sou um Deus e não um homem...” (Os 11,9). Se o cumprimento da Lei fosse segundo o ser humano, certamente faltariam pedras diante da multidão de pecadores, pois ninguém estaria isento. Mas como não há pedras suficientes para atirar em todos os pecadores, o Deus justo prefere renovar o seu compromisso com a vida: “Nem eu te condeno”. E aos invés de pedras para nos ferir e matar, lança um apelo misericordioso para conversão: “Vai, e de agora em diante não peques mais”.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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