A perícope evangélica deste 3º Domingo da Quaresma está emoldurada pelas duas referências à festa da Páscoa: “Estava próxima a festa da Páscoa dos judeus”, e “Jesus estava em Jerusalém para a festa da Páscoa”. Com este enquadramento, João nos dá a chave de interpretação para o gesto de Jesus, que geralmente se chama “a Purificação do Templo”, mas, na verdade, é o anúncio profético da sua morte e ressurreição, tanto no seu significado fundamental como realização da Páscoa definitiva, como nas suas profundas consequências, isto é, o novo Templo onde Deus se deixa encontrar é próprio o Corpo do seu Filho ressuscitado.

A partir deste terceiro domingo a nossa atenção se volta para a preparação da Páscoa, e os textos do evangelho evidenciam o mistério da cruz gloriosa de Cristo segundo João, por isso, a quaresma do ano B é considerada cristocêntrica (cf. Cristo, Festa da Igreja, pág. 268). Preparar-se para a Páscoa não é simplesmente programar bem a celebração dos ritos próprios desse tempo, mas exige um caminho de aprofundamento da pessoa de Jesus, pois a sua morte e ressurreição iluminam e revelam todas as suas ações e ensinamentos. Toda a comunidade que celebra a páscoa do Senhor é chamada a fazer a mesma experiência dos discípulos: “Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra Dele”. Portanto, a celebração da Páscoa nos dá a perspectiva de compreensão de todo o evangelho e das consequências e exigências de quem opta por ele.  

Jesus, na perspectiva dos antigos profetas, não ensina apenas com palavras, mas através da profecia em ato (ações simbólicas), isto é, por meio de um gesto simbólico-provocativo: “Fez então um chicote com cordas e expulsou todos do Templo”, chama atenção dos presentes a ponto de, não entendo a razão para tal ação, exigem a sua justificativa: “Que sinal nos mostras para agir assim?” A ação realizada alcança seu ponto alto na palavra proferida por Jesus: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei”, que representa uma denúncia e o anúncio portador de uma revelação de quem Ele é.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jesus, ao entrar no Templo, penetra o coração-simbólico da identidade nacional e religiosa do povo judeu, e, por ocasião da festa da Páscoa, no momento mais importante de celebração da religião do povo, a festa da memória solene do acontecimento mais marcante da sua história, a libertação das garras do Faraó. Portanto, Jesus está no centro da história e da religião do povo Judeu.

Porém, encontrando o Templo transformado em casa de comércio e a festa da Páscoa em ocasião de exploração, Jesus, ardente de zelo, denuncia essas infidelidades e proclama a realização da definitiva Páscoa e do verdadeiro Templo onde todos terão acesso a Deus. Tanto que por ocasião da sua morte, “o véu do Templo se rasgou em duas partes” (Mt 27,51; At 17,24; Hb 9,12; 10,20). O desvio da finalidade do Templo, que devia ser o lugar da adoração do Deus criador e libertador, e a manipulação da Festa da páscoa em vista do enriquecimento econômico dos que detinham o poder do Templo, levam Jesus a uma ação profética que não pretende acabar com o Templo nem com o culto, mas recuperar o seu significado original, pois esse aponta para a sua realização plena no próprio Jesus, o novo Templo, na sua obra redentora, a páscoa definitiva.

Ver no gesto de Jesus apenas uma explosão de ira descontrolada seria desvirtuá-lo; na verdade, como os discípulos intuem mais tarde, a ação de Jesus é um transbordamento de seu genuíno zelo: “O zelo por tua casa me consumirá” (Sl 69,10). A purificação do Templo revela aos discípulos que Jesus é o servo sofredor, o Messias, que para realizar a sua missão tem que passar pelo sofrimento e a morte. Tal perspectiva (de continuidade) se sintoniza com as expectativas do tempo, ou seja, de que o Messias purificaria e reconstituiria o Templo (cf. Ml 3,1-3). Porém, a grande novidade é a substituição do Templo material por uma realidade totalmente diversa que é o Corpo de Jesus ressuscitado. O zelo pela Casa de Deus para Jesus não se restringe a um cuidado reverente por um lugar dedicado e consagrado ao Pai, mas é, antes de tudo, manifestado na sua missão de dar a vida pelas ovelhas que o Pai lhe confiou, a fim de que as conduzisse para os prados da vida plena. Essa é a verdadeira casa de Deus, o lugar onde Ele quer habitar, por isso enviou o seu Filho que, ao encarnar-se, “armou a sua tenda entre nós” (Jo 1,14).

 

 

 

 

 

 

 

Ao expulsar os vendilhões do Templo Jesus inaugura a nova e definitiva liturgia agradável a Deus. Não há mais necessidade de comprar bois, ovelhas e pombas para o sacrifício, pois é Ele mesmo a vítima a ser oferecida para a reconciliação do gênero humano. Os cambistas que trocavam as moedas pagãs por moedas permitidas pelas autoridades religiosas para o pagamento dos impostos do Templo são mandados embora pois a graça da salvação realizada por Jesus não tem preço, é dom gratuito. E o alto preço que foi pago por tão grande dádiva não se quantifica em moedas mas é expressão da generosidade do Filho de Deus que veio para dar a sua vida a fim de “que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).

O chicote zeloso de Jesus não pretende simplesmente destruir, mas é sinal de purificação; não é símbolo de um desesperado que se contenta apenas em depredar para denunciar, mas representa o seu compromisso de cuidar das coisas do Pai, pois essas são as melhores para garantir a vida do seu povo.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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