Reflexão - XXXII Domingo do Tempo Comum - Lc 20, 27-38

“Ressurreição: fruto da boa semente”

A perícope evangélica deste domingo nos faz retomar, naturalmente, o tema da ressurreição dos mortos à luz da vitória de Cristo morto e ressuscitado, e que refletimos durante a comemoração dos fiéis defuntos e a solenidade de todos os Santos, há poucos celebradas. Ao longo da história da humanidade, uma pergunta permanece sempre no coração humano: o que acontecerá depois da morte? Muitas respostas têm sido dadas. Poderíamos dizer que o elemento comum entre todas aquelas que afirmam uma existência depois da morte, revela-se a crença na imortalidade. Para nós cristãos, não dizemos apenas que cremos que algo em nós será eterno, mas à luz da revelação de Cristo, que morreu e ressuscitou, e que é a razão da nossa esperança, o nosso futuro é a ressurreição. Ainda que esta realidade de fé permaneça envolvida num mistério, a fé nos garante a sua verdade. Pois não é uma simples especulação racional, mas uma adesão a uma pessoa: Jesus Cristo, o filho de Deus, feito homem para a nossa salvação, que nos garante a ressurreição para a vida em plenitude.

Jesus interrogado pelos saduceus, não vai se perder em especulações fundamentalistas para convencê-los daquilo que eles não acreditam, mas no seu clarividente ensinamento o Mestre Jesus denuncia a absoluta falta de fé deles, pois os saduceus não apenas rejeitam um artigo da fé judaica, uma vez que o judaísmo acreditava na ressurreição no último dia (“Disse Marta: ‘Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia’” Jo 11,24), mas sendo materialistas, de famílias nobres e integrantes de uma corrente religiosa politicamente influente, não acreditavam senão numa vida presente com todas as regalias e satisfações puramente de ordem material. Na verdade, eram aparentemente religiosos (frequentam o templo, citam a Lei), mas ideologicamente ateus, e as suas práticas o confirmavam.

 

Vale salientar que Lucas os identifica como aqueles que “falam contra a ressurreição” (grego: anti-légontes contra-falantes). Mais do que uma simples postura agnóstica diante da fé na ressurreição, eles se tornaram verdadeiros opositores e fazem propaganda contra a ressurreição dos mortos, inclusive com procedimentos irônicos, apelando a argumentos fundamentalistas a fim de colocar em contradição a própria Escritura: “Moisés deixou-nos escrito” (lei do levirato: Dt 25,5). Para o Antigo Testamento não deixar descendência era o mesmo que morrer, por isso uma mulher estéril é considerada uma amaldiçoada uma vez interrompe o fluxo da vida. Portanto, um homem casado morrendo sem filhos, a sua morte é vista como o fim absoluto da sua existência; era uma mentalidade primitiva que entendia que nos filhos, os pais continuavam a viver.

Importante notar que os saduceus quando dizem: “a fim de garantir a descendência para o seu irmão”, literalmente no grego diz-se: “ressuscite uma semente para o irmão” (grego: ex-anastese sperma tw adelfw). O verbo suscitar (traduzido no texto litúrgico “por garantir”) é formado pela raiz “anast” da mesma palavra “anastasis”, que significa ressurreição. Ainda que de modo incipiente, a própria Lei do levirato (do latim levir: irmão), já apontava para um horizonte mais amplo diante da morte, não é apenas uma questão de garantir a vida num plano humano e terreno, mas a vida com o seu germe de eternidade, a semente que morre para dar a vida (descendência em grego “sperma”).

Pergunta capciosa: “a esposa (mulher: grego gyne) na ressurreição, será esposa (mulher: grego gyne) de quem?” Tal pergunta não tem sentido para argumentar a favor ou contra a ressurreição, pois a mulher dada em exemplo não cumpriu a missão pela qual se tornou esposa, isto é, gerar filhos, garantir a “ressurreição”. Portanto, na eternidade, onde seremos todos filhos de Deus: “os que forem julgados dignos da ressurreição dos mortos... nem eles se casam... serão filhos de Deus”, não é mais o ser humano que “garantirá” a vida sem fim (“já não poderão mais morrer”), mas o próprio Deus. Já na citação da sarça se faz essa proclamação que fundamenta a fé na ressurreição, isto é, quem gera na verdade não é o ser humano por si só, mas somente Deus, pois só Ele é o senhor da vida, “pois todos vivem para Ele”.

 

Na sequência “O Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”, evidencia-se um elemento em comum, Deus é absolutamente o único que permanece sempre Pai, enquanto que os demais são gerados (filhos; Abraão filho de Taré, Isaac filho de Abraão...). Na verdade, a incredulidade dos saduceus em relação à ressurreição dos mortos é apenas uma consequência da sua falta de fé no Deus vivo. Se não acreditam que Deus é aquele que vence a morte e garante a vida, então vão acreditar em que deus? No deus dinheiro, riqueza, prazeres etc. E a morte põe fim a tudo isso.

Para o Cristianismo, a fé na ressurreição dos mortos não é apenas algo a mais que cremos, mas constitui a base fundamental da fé na ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou... vazia é a nossa esperança” (1Cor 15,13-14). Se a ressurreição é a grande vitória sobre a morte, isto significa que Deus, Senhor da vida, nos ama verdadeiramente. Se a morte fosse a última palavra para a nossa existência, Deus seria apenas um torturador...  Não teria sentido crer em Deus. Mas ele é amor e cremos nesse amor já manifestado na vida que vivemos, pois é grávida da eternidade que pelo parto da morte alçaremos.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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