Reflexão - XXIX Domingo do Tempo Comum - Mc 10,35-45

“O Batismo: um bom começo!”

No início de seu evangelho, Marcos descreve o batismo de Jesus de uma forma muito simples e direta (1,9-11), mas só ao longo do evangelho é que será possível vislumbrar o que, de fato, significa esse batismo nas suas implicações e profundidade. É comum pensarmos o batismo de Jesus como um momento pontual no início de sua vida pública. Porém, o evangelho nos faz ver que toda a vida de Jesus é um contínuo ser batizado. Com efeito, o batismo no Jordão assinalou solenemente apenas o início daquilo que será toda a sua vida e missão. Confirma esta verdade a sua afirmação na perícope evangélica deste XXIX Domingo: “Podeis beber do cálice que vou beber e ser batizados com o batismo com que serei batizado?” No momento em que Jesus disse isso, Ele já tinha sido batizado no Jordão, mas por que, então, fala de um batismo que está para receber? Vale salientar que este caráter batismal permanente na vida do Mestre é evidenciado pela expressão literal do grego que utiliza os verbos no presente: “O cálice que bebo (pino) ou o batismo com que sou batizado” (baptizomai). Portanto, o batismo de Jesus não se encerrou no momento em que João Batista o fez entrar e sair das águas do Jordão, mas alcançou a sua realidade definitiva quando, mergulhando na morte, ressuscitou ao terceiro dia. Da mesma forma, para nós cristãos, o batismo sacramental é apenas o início deste movimento da graça em nós para viver a nossa vida sob o impulso de descida e subida até realizar-se de forma completa na nossa morte que, por sua vez, será vencida pela ressurreição. Não nos afogamos nas águas do batismo, mas nelas mergulhamos para receber a vida nova, penhor da vida eterna.

À medida que se avança na leitura linear do evangelho de Marcos, pode-se cair na tentação de afastar-se do acontecimento-chave de todo o escrito que é o batismo de Jesus. Corrigindo esta tentação, o evangelista intencionalmente nos reaviva a memória do Jordão com o relato da Transfiguração (9,2-9), colocada justamente no centro da sua narrativa; deste modo, confirma-se o contínuo batizar-se de Jesus. De novo a revelação se dá entre um subir e um descer (a montanha). Com efeito, o Filho Eterno, ao sair do seio do Pai, inicia um longo percurso de descida (Encarnação) até entrar nas águas do Jordão, e, ao ser batizado, saindo dessas mesmas águas, inicia uma longa subida (Transfiguração) que alcança seu ponto mais alto na cruz e ressurreição (glorificação).

 

Quando o evangelista explicita a subida de Jesus para Jerusalém, e por duas vezes encontramos na perícope deste XXIX Domingo a expressão “subindo para Jerusalém” (vers. 32.33), diz-se que tanto os discípulos quanto aqueles que o acompanhavam estavam espantados e com medo, pois pela terceira vez ouviam do próprio Jesus o que iria lhe acontecer em Jerusalém. Surge, então a pergunta, por que os discípulos têm dificuldade de entender o que significa a subida de Jesus (sentar-se na glória: morrer na cruz)? A resposta é óbvia: porque não aceitam a sua descida. É evidente que os discípulos pretendem subir ao trono com o Mestre, mas não querem assumir o seu caminho de descida: “Vim para servir e não para ser servido”. Contudo, sem o impulso da descida, não haverá força para subir. Não é por acaso que o Mestre, diante do pedido audacioso dos “filhos do trovão”, mostra-lhes que sem assumir o seu batismo, isto é, descer e subir, não será possível participar da sua glória. Em termos comparativos, poderíamos dizer que o batismo é uma espécie de energia cinética espiritual, que fazendo-nos descer com o impulso da graça, torna-nos capazes de subir até que “alcancemos o estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13), que subiu porque desceu (ver Ef 4,9). A física nos mostra que a energia potencial transforma-se em energia cinética quando o corpo está em movimento. A espiritualidade cristã, alimentada especialmente pela Palavra de Deus e pelos sacramentos (particularmente o Batismo e a Eucaristia), põe-nos em movimento a fim de transformar tudo o que temos e somos (energia potencial: dons e capacidades) em frutos, conversão (energia cinética). É uma constante descida e subida, tipificada no batismo sacramental e real, que na nossa existência deve assumir a essencial prova de que, de fato, somos mergulhados no Cristo-servo, quando nos tornamos servidores também.

 

 

Enquanto este batismo de Jesus não se consumou definitivamente na sua morte e ressurreição, os discípulos viveram sempre na ambiguidade. Davam sempre a entender que ainda não conheciam o Mestre a quem seguiam, não compreendiam quem na verdade Ele era. É surpreendente constatar que os dois discípulos, João e Tiago, que exigiram que Jesus fizesse o que eles queriam, eram os mesmos que estavam, juntamente com Pedro, no momento da Transfiguração e que, por sua vez, ouviram solenemente a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” Expressão idêntica àquela do batismo, apenas com o acréscimo do imperativo “Escutai-o”. É evidente que o escutar aqui significa obedecer. Porém, esses dois discípulos invertem os papéis, ao invés de ouvir e obedecer a Jesus, exigem que seja o Mestre a ouvir e obedecer: “Queremos que faças o que te pedirmos!”

Apesar de terem feito a experiência privilegiada, ainda não compreenderam quem é o Messias Jesus. Permanecem com a mesma mentalidade de um Messias triunfalista, político e despótico. E não aceitam que a subida de Jesus seja para a cruz, mas exigem que sentando-se no trono, garanta-lhes os primeiros lugares. Segundo a Tradição, Tiago e João, filhos de Zebedeu que era casado com uma irmã de Maria (Salomé: Mt 27,55-56; Mc 15,40; Jo 19,25), eram primos de Jesus. Logo, a mentalidade nepotista. Considerando-se os primeiros na ordem natural (primos), exigem que Jesus siga a lógica comum dos poderosos deste mundo: “Sabeis que os governantes das nações as dominam, seus grandes as tiranizam”. Contudo, Jesus os corrige: “Entre vós não deve ser assim... Aquele que quiser ser grande, seja o vosso servidor, quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos”. A lógica é totalmente paradoxal, isto é, para subir é preciso descer, para ser grande é preciso fazer-se pequeno.

O serviço como entrega da vida é a maneira mais eloquente de testemunhar que somos batizados. E isto não se dá de forma pontual, esporádica, mas exige um contínuo morrer e ressuscitar; é um batismo permanente impulsionado pela poderosa força do alto que nos abaixa para colocar-nos onde o ser humano alcança o seu mais alto e elevado posto: ao lado Daquele que “não veio para ser servido, mas dar a sua vida em resgate por muitos”.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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