As parábolas que meditamos nos domingos anteriores (vinhateiros homicidas e convidados descorteses) evidenciaram as atitudes negativas dos fariseus e anciãos do povo diante do Reino de Deus.  Conscientes de que as denúncias feitas por Jesus se aplicavam muito bem a eles, agora “fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra”.O primeiro campo de investida é o político: querem a opinião de Jesus sobre uma questão espinhosa e, dependendo de sua resposta, inevitavelmente o colocarão contra o povo, no caso de um sim ao pagamento do imposto a César, ou contra o governo, caso sua resposta fosse um não. O fato de discípulos dos fariseus e partidários de Herodes se unirem nesse projeto revela suas intenções espúrias, pois ambos os grupos assumem posturas opostas em relação à dominação romana. Enquanto os fariseus alimentavam a esperança de um Messias que os libertasse do poder estrangeiro e pagão, os herodianos são colaboracionistas dos romanos, em vista de se manterem no poder, ainda que muito limitado e vigiado.

A resposta de Jesus, de tom irônico, mas de forte convicção, denuncia a malícia dos seus opositores: “Por que me preparais uma armadilha?” (grego: Tí me peirádzete: por que me tentais? O mesmo verbo utilizado para a ação do diabo Mt 4,1). Tentar Jesus significa querer desviá-lo de sua missão. Assim, como os seus opositores reconhecem que Ele é Mestre verdadeiro e que ensina o caminho de Deus, também o diabo e os endemoninhados reconheciam que ele era Filho de Deus; porém, todos eles se colocam diante de Jesus para convencê-lo de que sua missão é outra.

 

Jesus, ao pedir que lhe mostrassem a moeda do imposto, denuncia que o escrúpulo dos fariseus é falso, pois mesmo sendo oficialmente opositores do poder romano, faziam uso da sua moeda, já que a levam consigo. Não perguntam a Jesus no intuito de tomarem uma decisão, isto é, se deviam ou não pagar o imposto, pois já o faziam, e conheciam muito bem as consequências da sonegação. Portanto, a sua pergunta é maliciosa, querem apenas um pretexto para acusar Jesus.

O Mestre não se deixa intimidar pela pergunta capciosa nem muito menos suaviza sua resposta diante da bajulação dos seus interlocutores, mas lança-lhes um grande desafio: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

“Dar a César o que é de César” não significa apenas restituir-lhe uma moeda, mas reconhecer o que de fato pertence a César. O paralelo entre o que é de César e o que é de Deus se faz pela pergunta central de Jesus ao pedir que lhe mostrassem a moeda: “De quem é a figura e a inscrição”. Figura (imagem) em grego é eikon (ícone), a mesma palavra utilizada pela LXX em Gn 1,26: “Façamos o homem à nossa imagem (kat eikóna) e semelhança”. Enquanto o imperador fez cunhar a sua imagem sobre a moeda, símbolo do seu domínio opressor, Deus não colocou a sua imagem em qualquer coisa que servisse de instrumento de senhorio déspota, mas criou o ser humano com liberdade e dignidade, fazendo-o à sua imagem e semelhança. Portanto, o ser humano é de Deus! É a sua imagem, e só se realiza plenamente quando está relacionado e em comunhão com a sua origem.

 

Todas as vezes que se desfigura o ser humano, querendo imprimir nele uma imagem que não é a sua original, afastando-o da sua natureza intrínseca, ele se torna um objeto manipulável e servidor de sistemas totalitários opressores.

O imperador além de colocar o seu ícone na moeda, manda fazer uma inscrição para proclamar que ele mesmo é a divindade. Portanto, o sistema dominador declara-se criador e, ao mesmo tempo, o legislador para garantir as suas estratégias de poder. Se a escrita do Criador é a sua Palavra que liberta e salva, na sua multiforme manifestação chegando à sua expressão máxima na encarnação do Verbo, a inscrição do imperador é o sinal da sua arrogância que aprisiona e subjuga as pessoas, pois faz a autoproclamação de ser seu senhor absoluto, divindade que deve ser reconhecida, adorada, e à qual se deve entregar tributos (culto).

Hoje em dia vivemos a grande crise da identidade do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, mas deformado segundo a imagem das ideologias dominantes. Abandona-se a inscrição contida na própria natureza criada por Deus, na tentativa compulsiva de escrever por cima dela, de modo violento e opressor, forjando uma pseudo-realidade imposta pelos Césares modernos, disfarçados de bem feitores da humanidade. É preciso ter a coragem de obedecer a ordem de Jesus: Daí a César o que é de César (nada) e a Deus o que é de Deus (tudo).

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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