A meditação do evangelho de hoje nos faz perceber que o problema colocado por Jesus aos seus interlocutores não diz respeito apenas à obvia incoerência entre o sim teórico e o não prático. Mas o Mestre, com a sua pedagogia simples e objetiva, inspirando-se em situações concretas da vida cotidiana, ensina que só o caminho de conversão é capaz de superar a distância incoerente que muitas vezes se constata entre o nosso falar e o nosso modo de agir.

Esse caminho, por sua vez, vai sendo construído a partir da fé, isto é, por meio da adesão ao evangelho como proposta concreta de vida no seguimento de Jesus. Por outro lado, é impossível seguir o Mestre se não confrontarmos a nossa vida com a Dele. Consequentemente, esse confronto nos proporcionará uma experiência de reconhecimento da nossa condição de fragilidade, de miséria e pecado, porém com uma esperança fundamentada no arrependimento sincero e verdadeiro, o qual produzirá frutos de autêntica conversão e não apenas sentimentalismos circunstanciais que justificam mais a permanência na condição atual de pecado do que a necessária mudança de vida.

O arrependimento não é constrangimento emocional ou moralismo farisaico teatral, mas atitude interior que faz reconhecer a própria necessidade de mudança de vida e a firme decisão de tomar o melhor caminho, ou seja, fazer a vontade do Pai.

Os dois filhos da perícope do evangelho representam as várias situações existenciais do ser humano tanto na dimensão pessoal como nos seus aspectos comunitários; todos nós passamos, de alguma maneira, por experiências semelhantes. Quantas vezes dizemos sim e agimos contraditoriamente, ou mesmo dizemos não, mas por coerência com a verdade que se nos impõe, arrependemo-nos e empreendemos um caminho de conversão, independente da gravidade do nosso pecado.

O curto e objetivo texto de hoje está emoldurado por uma sequência de atitudes que sintetizam o acolhimento do evangelho, como apelo e anúncio da boa notícia da salvação: “crer, arrepender-se e fazer a vontade de Deus”. A crítica que Jesus faz aos que se consideram não necessitados de conversão (sacerdotes e anciãos do povo) denuncia a sua falta de fé e, ao mesmo tempo, a sua incapacidade de fazer a vontade do Pai, pois não se arrependem diante da sua incoerência, pois presunçosamente se acham cumpridores irrepreensíveis da Lei: “Vós porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”.

Como dissemos, a moldura deste quadro do evangelho é a atitude de conversão tanto do primeiro filho que, arrependido, decide cumprir o mandato do pai, quanto das prostitutas e dos cobradores de impostos que acreditam no apelo de João Batista e, por conseguinte, arrependidos, fazem a vontade do Pai. A insistência de Jesus não está tanto na constatação da contradição entre o falar e o agir, pois isso é comum na experiência humana, é algo tão óbvio que qualquer pessoa, mesmo não sendo conhecedora das Escrituras ou de princípios religiosos e éticos, poderá identificar e reconhecer, mas não necessariamente estará disposta a mudar. O foco principal é a fé, isto é, o ponto de partida para a conversão que, por sua vez, não é simplesmente mudança de opinião sobre algum tema, ou mesmo estar de acordo teoricamente com alguma verdade objetiva, mas é empenhar-se na prática da vontade do Pai. Por isso, a resposta tão fácil para a questão: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”.  Do ponto de vista teórico, a maioria das pessoas, sobretudo aquelas que se encontram na esfera da prática religiosa, sabe o que é o correto, porém nem sempre assume na sua vida as consequências práticas daquilo que reconhece ser o mais coerente com a verdade.  Percebe-se, nessa situação, um desequilíbrio entre a consciência moral e a convicção de atitudes, pois falta-lhe a adesão de fé. Geralmente tem-se a lucidez que advém da moral, mas falta a força para atuar de forma coerente na vida.

O primeiro filho não mudou apenas de opinião para se convencer que deveria ir trabalhar na vinha naquele dia e, por isso, fazer a vontade do pai. No diálogo entre o primeiro filho e o pai não se diz que o filho afirmou que não iria e foi. Ele simplesmente diz: “Não quero”, isto é, manifesta uma indisposição interior de obedecer a vontade do pai. É sincero, reconhece a sua verdade, porém a sua verdade não é absoluta, fechada, por isso, é capaz de repensar a sua decisão, reconhecê-la como incoerente e, por isso, arrepende-se. A tradução: “Mas depois mudou de opinião”, enfraquece o significado do texto. Pois literalmente o grego diz: “mais tarde, porém arrependido foi” (Grego: hysteron dè metameletheis apelthen). Não foi uma opinião que ele mudou, mas uma atitude que assumiu.

Interessante notar que Jesus ao introduzir a narração pergunta a opinião dos sacerdotes e dos anciãos sobre uma verdade evidente: “Que vos parece?” (grego: qual a vossa opinião: tí dè hymin dokei?). Ter uma opinião, inclusive correta, sobre algo não significa mudança de atitude. Portanto, o primeiro filho não mudou apenas o seu parecer diante do pedido do pai, enquanto que o segundo filho ao dizer que ia trabalhar, deixa claro que está de acordo com aquilo que o pai lhe pede, no entanto, não foi.

Estar de acordo com a vontade do pai nem sempre é comprometer-se em realizá-la. Para tal é preciso fé e arrependimento. E isso as prostitutas e os cobradores de impostos demonstraram ao se converterem diante do apelo de João Batista.

Jesus ao declarar que os pecadores precedem os sacerdotes e os anciãos no Reino do de Deus explicita a razão fundamental de tal precedência: “João Batista veio até vós num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele”. Não é o fato de ser prostituta ou cobrador de impostos que garante a precedência no Reino ou ser sacerdotes ou ancião, a sua exclusão. Mas entrar no Reino de Deus depende exclusivamente da conversão das nossas atitudes. Conversão exige crer e se arrepender para fazer a vontade de Deus.

Dom André Vital

Igreja Católica Apostólica Romana.

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