As parábolas de Jesus que encontramos nos evangelhos são mais do que simples comparações para facilitar a compreensão do seu ensinamento. Na verdade, ao contar uma parábola, o Mestre não pretende apenas que seus discípulos sejam instruídos numa determinada doutrina ou que tenham mais clareza do que ele está dizendo, mas que se comprometam ainda mais com a dinâmica do seguimento, isto é, que convertam a sua mentalidade e motivações, reafirmando a sua opção de aderir ao caminho de Jesus. Mais do que almejar uma recompensa final, calculada segundo aquilo que realizou, o discípulo deve crescer na consciência e convicção de que o permanente chamado de Deus para trabalhar na sua vinha já representa a fundamental motivação para aceitar o convite. Ser chamado ao trabalho da vinha, isto é, colaborar na implantação do Reino de Deus, já nos enche de alegria e, portanto, dever ser já uma recompensa antecipada.

 

Mesmo inspirando-se nos costumes da época, a parábola contada por Jesus apresenta um elemento fundamental que vai para além da lógica esperada, isto é, um patrão que não é apenas justo, mas que é livre, e por isso revela-se bom. Se é verdade que praticar a justiça é reconhecer o direito que o outro tem de receber e haver o que lhe pertence, a bondade, por sua vez, expressa a liberdade de um coração que ama e, por isso, é capaz de repartir o que é seu sem deixar-se condicionar por cálculos estreitos e mesquinhos, mesmo que esses obedeçam a uma lógica justa.

A parábola nos desafia a superar a mentalidade da comparação horizontal, que cria muitas vezes competições desonestas ou exclusão injusta. Comprometer-se com a construção do Reino não é associar-se a um sindicato em vista da reivindicação de salários justos e igualitários segundo os critérios de um determinado grupo, mas assumir a lógica do Reino, é colocar-se a serviço da vida, dom gratuito de Deus, impossível de ser quantificado em vista de recompensas calculadas. Só quem é capaz de doar-se com generosidade é capaz de trabalhar com empenho no cuidado com a vida que, desde a madrugada até a noite do seu existir, é marcada pelo chamado permanente à plenitude.

Ao sair cincos vezes convidando trabalhadores para a vinha (madrugada, nove horas, meio dia, três horas, cinco da tarde), o patrão manifesta a sua generosidade em contratar o máximo de pessoas, independentemente se iriam trabalhar muito ou pouco naquele dia. Essa sua atitude perseverante indica que não importa tanto o momento no qual se começa o trabalho, talvez não tenha sido opção pessoal o não trabalhar: “Ninguém nos contratou”; mas o que conta mais é a prontidão em responder ao apelo.

Interessante notar que não são os “desempregados” que procuram o patrão pedindo-lhe emprego, mas é o próprio patrão que vai ao encontro deles na praça convidando-os para trabalhar na sua vinha. Essa atitude do patrão revela já antecipadamente a sua bondade, pois vai para além de uma resposta positiva diante da necessidade do outro, mas é ele que toma a iniciativa de oferecer o que o outro necessita.

A visão mesquinha de justiça arranca a bondade do coração do ser humano, portanto, torna-o um ser calculista e, consequentemente, desumano e incapaz de colaborar na construção do Reino de Deus enquanto peregrina sobre a terra. A justiça horizontalista fundada na obsessão de direitos que se opõe a responsabilidades inerentes à vida e à convivência destrói a generosidade do coração humano tornando-o um empregado mal pago, frustrado no seu agir e, consequentemente, um juiz impiedoso para com o semelhante nos seus relacionamentos. Perdendo a consciência de ser chamado por Deus para o trabalho da vinha, o ser humano perde também a consciência de que o semelhante tem a sua mesma dignidade, pois são todos colaboradores e não concorrentes.

Na parábola, o valor fundamental e absoluto que estabelecia a justiça entre os diversos chamados a trabalhar na vinha não era a recompensa material (uma moeda de prata), mas o fato de todos eles terem sido chamados pelo mesmo patrão, que é bom e, por isso, é verdadeiramente justo.

A parábola alcança o seu ponto alto quando o patrão (Deus) declara a sua perfeita e absoluta liberdade ao chamar quem quer e quando quer para trabalhar na sua vinha (o reino). Consequentemente, ninguém pode ditar-lhe os critérios pelos quais será considerado justo, pois antes de tudo, é preciso fazer a experiência da sua bondade, que se manifesta no permanente chamado dirigido a todos indistintamente, para só assim poder reconhecer que Ele não é injusto só porque o seu desejo é salvar a todos.

Dom André Vital

Igreja Católica Apostólica Romana.

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