Reflexão - XXIII Domingo do Tempo Comum - Mc 7,31-37

“Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez”

A distinção que se faz entre surdo e mudo, na maioria dos casos, é apenas de ordem teórica, pois na prática quem é surdo, também é mudo, com suas raras exceções, ou pelo menos quem não ouve bem, tem muita dificuldade de falar.

A própria palavra surdo em grego (kofos) é também traduzida por mudo. Mas por que esta relação tão estreita? A própria experiência comprova e isso não só para pessoas que têm essa deficiência, mas até mesmo para quem pensa ouvir e falar bem, que se não ouvirmos bem, falaremos mal, e se ouvirmos o mal também falaremos o mal.

Uma pessoa que teve a sorte de nascer e crescer num ambiente onde ao seu redor se falava corretamente o português padrão, não teve tantas dificuldades quando começou a estudar as estruturas formais da língua na escola, pois essas já estavam assimiladas pelo ouvir. Mas quem internalizou estruturas sintáticas dissonantes com a gramática normativa, vive um verdadeiro terror quando chega à escola, pois reproduz o que ouviu e tem a sensação de estar falando outra língua. Sem contar que ao se dar conta dessa incongruência, pode ter a tentação de ficar muda em certos ambientes para evitar constrangimentos.

O surdo-mudo deste XXIII Domingo do Tempo Comum deve ser visto não apenas como mais um doente miraculado por Jesus, mas símbolo de uma sociedade que ouve muito mal e, consequentemente, não consegue falar bem, e por isso, precisa recuperar a sua capacidade de escuta atenta e profunda.

Passemos a observar as atitudes de Jesus que não quer apenas livrar este surdo-mudo de sua dificuldade de comunicabilidade, mas antes de tudo, restituir-lhe a condição de pessoa humana chamada à plenitude de vida cuja a condição “sine qua non” é ser capaz de ouvir bem para expandir a sua capacidade de comunicar-se bem. É comprovado cientificamente que o primeiro sentido desenvolvido no bebê já no útero da mãe é a audição, e que a sua primeira fonte de experiência está muito ligada ao que ouve. 

 

Apesar de utilizar gestos bem parecidos com aqueles usados por taumaturgos do mundo grego e semita (saliva, imposição de mãos, palavras imperativas), Jesus distingue-se deles pela finalidade da sua intervenção, isto é, não quer reabilitar apenas algumas faculdades do ser humano, mas empenha-se em conduzi-lo, na sua totalidade, ao bem.

O primeiro gesto imposto por Jesus foi retirar o homem da multidão e ficar a sós com ele. Auditórios para Jesus nunca foram o melhor lugar para suas intervenções miraculosas (ver Mc 7,37), diferentemente dos pseudos taumaturgos de nossos dias que não conseguem realizar suas curas, exorcismos, e espetáculos religiosos se não estiverem em palcos e diante de grande público. Os gestos de colocar os dedos nas orelhas e tocar a língua do doente com a saliva, apesar de semelhança com as práticas do tempo, indicam o seu contato direto, pessoal. Jesus não tem medo de tocar as pessoas, não se preocupa de ser considerado impuro, mas o seu toque é a extensão do próprio agir do Pai que fez tudo com as suas mãos: “Quando vejo o céu, obra de teus dedos, a lua e as estrelas...” (Sl 8,3), “Porque a Sabedoria abriu a boca dos mudos, tornou eloquente a voz dos pequeninos” (Sb 10,21). Não eram gestos mágicos, mas anúncio da ação libertadora de Deus, que não tem intermediários para realizar suas obras, mas Ele mesmo toca para criar. “Levantando os olhos para os céus”, outro sinal de que a obra de Jesus é reflexo, prolongamento da obra do Pai. O gemido (ou suspiro) de Jesus nos faz lembrar as dores de parto cuja expectativa é de toda a criação: “Pois a criação ansiosamente espera pela revelação dos filhos de Deus... Até o momento presente a criação inteira geme e sofre...” (Rm 8,19-22).

 

Jesus é o Primogênito da Nova Criação e participa da nossa condição, ao encarna-se “se fez em tudo semelhante a nós” e “apresentou ao Pai pedidos, súplicas, clamor e lágrimas e foi atendido...” (Hb 4,15; 5,7). Na cura do surdo-mudo o gemido de Jesus: “Ephatha”, que foi traduzido por “Abre-te” (o verbo grego utilizado aqui é dianoigo), indica não apenas um abrir algo pontual, uma parte, mas abrir na sua totalidade. Jesus não abriu apenas os ouvidos do homem, mas restitui-lhe a capacidade de ouvir que, consequentemente, era também de falar. Não foi apenas capacidade física de dizer o que queria, pois Jesus impôs-lhes um silêncio, tanto ao surdo-mudo curado quanto aos que o levaram: “Jesus lhes proibiu de contar o que acontecera”.

Para além das diversas hipóteses apresentadas pelos vários comentadores sobre essa proibição de Jesus (não podemos aqui desenvolvê-las), chama atenção a reação quase que irresistível daqueles que agora viam o surdo-mudo falar e ouvir corretamente: “Quanto mais o proibia, tanto mais eles o proclamavam”.  Os discípulos, mais adiante nos Atos dos Apóstolos também “são proibidos absolutamente de falar ou ensinar em nome de Jesus”, mas reagem intrepidamente: “É impossível deixarmos de falar das coisas que temos visto e ouvido” (At 4,18.20). No caso do evangelho, eles não viram Jesus realizar a cura, pois o surdo-mudo foi retirado da multidão, mas agora viam o surdo-mudo falando, pois também estava ouvindo. Impressionante se pensarmos nessa primeira experiência de ouvir bem de toda a sua vida, isto é, o que ele ouviu pela primeira vez de modo nítido e claro foi a Palavra de Jesus, portanto, agora tem condições de falar bem.

Se quisermos não apenas falar bem, mas falar o bem, é preciso sair do meio da multidão barulhenta, para ouvir o que o Senhor nos tem a dizer pela sua Palavra, na Escritura e nos acontecimentos da vida, isto exige de nós capacidade de silenciar, para que esta Palavra ressoe em nós irresistivelmente. Assim outros reconhecerão que em nós o Senhor tem feito tudo bem, como fez na primeira criação: “E Deus viu tudo o que tinha feito: e era grande bem” (Gn 1,31), a fim de que possamos afirmar como Santo Agostinho: “Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei...” (Confissões)

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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