Há uma semana refletíamos sobre as raízes da nossa fé eclesial. Proclamando Simão Pedro bem-aventurado, Jesus declara que a fé é um dom do Pai, que revela àqueles que seguem o Filho o caminho que deve ser percorrido para encontrar a Salvação, ou seja, tornar-se verdadeiramente discípulo do Messias Jesus, Filho do Deus vivo. Contudo, Jesus não é um messias a mais entre tantos; diferentemente de todas as expectativas messiânicas, Ele é o Filho de Deus que assumiu a condição de Servo Sofredor. Crer Nele é o fundamento, a pedra invencível, sobre a qual Ele mesmo edifica a sua Igreja. Porém, é preciso estar atento para não cair na tentação de querer apenas seguir o Messias-Filho de Deus sem cruz, sem estar disposto a morrer com Ele e por Ele. Caso contrário, não se alcançará a sua ressurreição, fazendo do aparente seguimento apenas uma ilusória garantia para “ganhar o mundo inteiro e arruinar a própria vida”.

Reconhecer que Jesus é o Messias-Filho de Deus sem cruz é a pior das alienações de quem se diz cristão, pois iniciou o caminho de seguimento, mas infelizmente passou à frente do Mestre, traçando a sua própria estrada, tornando-se para si mesmo uma pedra de tropeço.

Logo após o seu batismo, momento em que fora declarado solenemente pelo Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17), Jesus foi tentado por Satanás que queria persuadi-lo de abandonar o caminho da cruz, usufruindo do seu poder de Filho de Deus para suprir todas as suas necessidades materiais (“pedra em pão”), gozar de todos os privilégios divinos (“Deus dará ordem a seus anjos a teu respeito”) e conquistar todos os reinos abdicando da sua filiação divina, reconhecendo o Satanás como o absoluto da sua vida (“Tudo te darei, se, prostrado, me adorares”). De modo semelhante, após ter sido reconhecido pelos discípulos como Messias-Filho do Deus vivo, Jesus é tentado por um deles ao qual chama de Satanás, isto é, o adversário, aquele que joga contra. Este é um momento crucial para discernir o seguimento, pois de agora em diante o caminho para cruz é inevitável, por isso Jesus o anuncia por três vezes (o evangelho de hoje, e mais duas outras vezes: Mt 17,22-23; 20,17-19).

Diante das propostas tentadoras do Satanás no deserto, Jesus rompe firmemente e o manda embora (grego: hypage, Satana! Vai-te para longe de mim, adversário!). Porém, mesmo chamando Pedro de Satanás, Jesus dá-lhe outra ordem: “Vai para trás de mim” (grego: hypage opiso mou), ou seja, ainda o reconhece como um discípulo, a quem um dia chamou: “Vinde após mim” (grego: Deute opíso mou) e que, apesar das suas misérias, não desistiu dele. Mandando-o para atrás de si (“vai para longe” não traduz exatamente), Jesus relembra a Pedro e a todos os seus discípulos que só há um modo coerente de segui-lo, colocando-se atrás Dele, palmilhando o seu caminho à medida que segue os seus passos. Portanto, colocar-se à frente do Mestre, determinando o que Ele deve fazer, ou tomando um caminho de distanciamento da vontade do Pai, é assumir o papel de adversário (Satanás).

Apesar da boa vontade de Pedro ao afirmar: “Deus não permita tal coisa, Senhor”, faltava-lhe aceitar a verdade da missão de Jesus cuja realização se daria na sua entrega definitiva na cruz: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Literalmente a expressão de Pedro é mais ousada: “Deus tenha misericórdia de ti” (grego: hileos soi, kyrie!); é a presunção de Pedro de querer saber mais do que o Mestre, a ponto de considerar aquilo que Jesus disse um erro digno de ser perdoado por Deus. É o sintoma do discípulo alienado, que perdeu a lucidez das consequências da missão porque não enxerga mais o Mestre diante de si norteando o caminho a ser seguido, mas segue os seus próprios interesses, buscando apenas as vantagens momentâneas de uma existência sem cruz a fim de ganhar o mundo inteiro, mesmo destruindo a possibilidade de eternizar-se.

Diante dessa atitude sedutora de Pedro, Jesus mais uma vez reage com firmeza: “Tu és para mim uma pedra de tropeço”, no grego não se encontra explicitamente a palavra “pedra” (petra, do aramaico kefas), mas “escândalo és para mim”, isto é, uma armadilha, algo que obstrui o caminho impedindo que se chegue ao destino. Um pouco antes Jesus declarara a fé de Pedro uma pedra firme sobre a qual a sua comunidade é edificada, agora essa atitude covarde de Pedro leva o Mestre a chamá-lo de adversário, pois se coloca à frente tentando convencer Jesus a abandonar o projeto do Pai. Mais adiante Jesus aprofundará o que significa, na verdade, o escândalo: “Caso alguém escandalize um desses pequeninos que creem em mim, melhor será que lhe pendurem uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar” (Mt 18,6).

Portanto, o grande empecilho para seguir Jesus é a falta de fé. Ilustrativo é o fato de Pedro ao descer do barco para caminhar sobre as águas ser repreendido por Jesus por sua falta de fé, pois começava a afundar como se tivesse preso ao seu pescoço uma pedra de moinho (Mt 14,22s). Portanto, o grande escândalo que nós cristãos podemos dar ao mundo é a nossa falta de fé, apesar de a professarmos com palavras solenemente todos os domingos.

Dom André Vital

Igreja Católica Apostólica Romana.

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