Reflexão - XVIII Domingo do Tempo Comum - Lc 12, 13-21

“Celeiros repletos, coração vazio: perda total!”

O evangelho deste domingo nos faz refletir sobre a maneira que estamos administrando a nossa vida. Como uma ocasião para juntar compulsivamente bens materiais, esperando que esses nos garantam a verdadeira felicidade ou reconhecendo a nossa existência como o maior bem que podemos ter e, por isso, a melhor forma de viver é fazendo desse momento de peregrinação na terra um profundo e vigoroso testemunho de que o horizonte da vida nos conduz para além das dimensões dos nossos celeiros, que a felicidade indestrutível não depende do que depositamos nos bancos ou naquilo que investimos materialmente.

Podemos identificar dois momentos distintos na perícope que nos é proposta hoje: um fato concreto da vida (vv 13-15) e uma verdade universal apresentada didaticamente por Jesus através da parábola (vv 16-20). Esses dois momentos estão intimamente relacionados, pois é a realidade da vida iluminada pela verdade da Palavra.

Alguém da multidão pede a Jesus: “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança”. Neste pedido vemos uma contradição gritante, alguém que chama Jesus de mestre, mas não demonstra que tem aprendido as suas lições. Pelo contrário, dá entender que nem conhece os ensinamentos de Jesus: “Não vos preocupeis com a vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o corpo, quanto o que haveis de vestir. Pois a vida é mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa...” (Lc 12,22-23). Mesmo reconhecendo Jesus como um mestre que tem autoridade, e, por isso, pode fazer também o papel de juiz, não é capaz de perceber que a missão de Jesus é mais do que resolver conflitos familiares que emergem e confirmam atitudes egoístas, ambiciosas e avarentas. Estas causam divisão entre as pessoas e desfiguram a vida, reduzindo-a à sua dimensão mais superficial e efêmera: o uso dos bens materiais. Jesus rejeita esta tarefa, pois a sua missão é “Evangelizar os pobres, proclamar a remissão aos presos, a recuperação da vista aos cegos, restituir a liberdade aos oprimidos, e proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4,18s). Portanto, a palavra de Jesus: “Precavei-vos cuidadosamente de qualquer cupidez, pois mesmo na abundância, a vida do homem não é assegurada por seus bens”, é um grande apelo de conversão a fim de que aqueles que o chamam de “Mestre” se tornem verdadeiramente seus discípulos, não só de palavras mas com um novo estilo de portar a vida.

 

Àquele que deseja garantir a sua condição de rico material, o Mestre desafia a assumir a pobreza como condição indispensável para acolher o evangelho da salvação. Àquele que demonstra está aprisionado aos bens materiais, o Mestre chama a libertar-se com atitudes de solidariedade, pois a sua cegueira, motivo de sua opressão interior, o impede de ver as outras dimensões da vida. O Mestre ao rejeitar fazer-lhe papel de juiz, provoca-o a ampliar o horizonte, a fim de que enxergue que a vida é dom de Deus, que não nos pertence, e por isso, é preciso ser administrada com humildade e sabedoria.

A parábola contada em seguida, retoma este fato da vida evidenciando as raízes da ambição e da avareza que tornam as pessoas escravas e dominadas pelo prazer insaciável de possuir. O rico da parábola tem duas convicções que o desumanizam: pensa-se dono e dominador da sua vida e do seu destino: “E direi à minha alma, tens uma quantidade de bens em reserva para muitos anos”, e acredita que os bens materiais, quantos mais numerosos forem, mais felicidade lhe garantirão: “Repousa, come, bebe, regala-te”. Este rico avarento é símbolo do ser humano que entrou num processo de perda de sua identidade como gente, isto é, não se reconhece como criatura de Deus, um filho amado que Dele recebe os bens e, portanto, a atitude mais lúcida diante dessa verdade seria louvar o seu Criador por tudo aquilo que lhe favoreceu, como testemunha a sabedoria bíblica: “A terra produziu o seu fruto: Deus, o nosso Deus, nos abençoa, e todos os confins da terra o temerão” (Sl 67,7.8). Porque não se reconhece criatura, desconsidera o Criador, e ao invés de dizer à sua alma: “Bendize a Javé, ó minh´alma, e tudo o que há em mim ao seu santo nome! Bendize a Javé, ó minha alma, e não esqueças nenhum dos seus benefícios” (Sl 103,1.2), mergulha numa atitude de soberba e arrogância colocando-se no lugar de Deus.

 

A outra atitude desumanizante desse rico, consequência da sua falta de reconhecimento da bondade de Deus, é não ser bondoso para com o semelhante, sobretudo os pobres. Não pensa em repartir abundância de seus bens, mas acumulá-los, mesmo sem ter onde colocá-los. E, portanto, torna-se um louco e infeliz. Pois é feliz: “O homem que teme a Javé e se compraz em seus mandamentos... Na sua casa há abundância e riqueza... Ele distribui aos indigentes com largueza, sua justiça permanece para sempre...” (Sl 112,1.3.9).

Não basta apenas reconhecer que um dia morreremos e que não levaremos nada de material conosco, mas se enquanto vivemos temos ao nosso dispor tantos bens, sejam da natureza ou do fruto do nosso agir no mundo, a questão fundamental é como administramos tudo isso. Como arrogantes que pensam ser donos de tudo, numa competição desumana acumulando sem necessidade, provocando a escandalosa miséria dos outros, ou como pessoas generosas e gratas que reconhecem os benefícios de Deus e sabe que, sendo Ele o Pai de todos, a melhor maneira de louvá-lo e viver como irmãos que compartilham de toda a riqueza. Pois não bastam celeiros cheios, é preciso o coração pleno de gratidão e as mãos abertas para a comunhão.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

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