A multiplicação dos pães e dos peixes que refletimos no domingo passado prepara o grande momento de revelação de Jesus e torna-se ponto de referência para o discurso do “pão da vida” (6,26-64). A perícope evangélica deste domingo é a introdução do desse longo discurso, pois apresenta a verdade fundamental do ensinamento de Jesus, “o Filho do Homem que dará o alimento que perdura até a vida eterna”. Este alimento não é alguma coisa que Ele oferece, mas é Ele mesmo que se entrega a fim de alimentar o seu povo com a sua carne e o seu sangue.  A compreensão errada do sinal realizado por Jesus, leva o povo a querer fazê-lo rei aos moldes humanos, mas Ele não aceita: “sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, retirou-se de novo sozinho para o monte”. O alimento multiplicado para saciar a fome da multidão foi “tomado, abençoado e entregue”, portanto, assumiu um caráter que transcende o seu aspecto material, pois devia levar o povo a enxergar em Jesus algo a mais do que simplesmente um líder político que iria resolver, de forma mágica, um problema circunstancial de um determinado grupo.

 

Jesus recusa-se ao populismo que ilude as pessoas e as aprisiona numa situação de perenes mendicantes, que buscam apenas garantir suas bolsas de pão, leite, etc. etc. Não há dúvidas de que o pão material é necessário, porém só ele não é suficiente para a vida: “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que perdura até a vida eterna”.  Segundo a narração dos sinóticos, Jesus multiplica o alimento porque tem compaixão ao ver o povo “como ovelhas sem pastor”. Ser pastor não significa apenas dar às ovelhas comida e bebida materiais, mas o verdadeiro pastor dá a própria vida por elas. Uma das características fortes no pastoreio de Jesus foi ensinar através de palavras e atitudes; este era o modo mais eficaz de alimentar as multidões que se sentiam atraídas pela sua presença. Porém, Ele não as seduzia com estratégias mirabolantes e populistas tornando-as cegas e subservientes: “Em verdade, em verdade vos digo, estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados”.

 

S. Agostinho comentando essa passagem do evangelho diz que procura-se mais algo de Jesus do que a Ele mesmo (“Vix quaeretur Iesus propter Iesum”).  Esta é a tentação permanente de muitos que se aproximam Dele, isto é, as multidões que enchem igrejas, templos, praças à procura de milagres e curas, mas que não estão buscando conhecer Jesus e nem sua proposta de vida com o propósito de segui-lo e dar a vida por Ele. Não querem abraçar a sua cruz, contentam-se apenas com o pão que Dele podem receber, mas não querem se alimentar do pão que Ele é.

Diante da resposta de Jesus, a multidão lhe pergunta: “Que obras devemos fazer para realizar as obras de Deus?” As obras de Deus no Antigo Testamento eram: a Criação e a Libertação do Egito. O povo era chamado a reconhecer essas obras e tornar-se suas testemunhas perante os outros povos, proclamando assim o único Deus que faz maravilhas por seu povo. Agora Jesus anuncia a maior de todas as obras do Pai: “A obra de Deus é que acrediteis Naquele que Ele enviou”. Não era apenas reconhecer e testemunhar as obras de Deus, mas era preciso crer em Jesus, a Palavra que se fez carne. Portanto, aderir a Jesus reconhecendo-o como o Enviado do Pai, o seu próprio Filho, é a grande resposta. Vê-lo apenas como o Profeta ou fazer dele um líder político, era recusar a obra de Deus, esvaziando o seu significado e alcance profundos.

Apesar de já terem visto o sinal, a falta de fé faz com que as pessoas exijam de Jesus outras provas: “Que sinal realizas para que possamos ver e crer em ti? Que obras fazes?”  Relembram, então, a obra de Deus no deserto através de Moisés: “Nossos pais comeram o maná no deserto...” Porém, o maná do deserto era apenas um sinal, como também os pães multiplicados há pouco, para anunciar uma outra realidade. Destarte, era preciso, pela fé, reconhecer a realidade para a qual o sinal apontava. O maná era apenas uma pergunta (manná em hebraico man hû significa “o que é isto? Cf. Ex 16,15). A resposta só foi dada por Jesus: “Isto é o meu corpo”. Portanto, a Eucaristia é isto: a resposta definitiva de Deus diante da fome do seu povo, é o único alimento que pode dar vida em plenitude, pois é o penhor da vida eterna: “É o pão descido do céu”. Não é apenas sinal, não é um simples símbolo de um alimento espiritual, mas já contém em si a realidade da presença de Jesus: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá fome e quem crer em mim não terá mais sede”.

Participar da Eucaristia buscando apenas o alimento perecível é sinal de que ainda não estamos realizando a obra de Deus, ou seja, crendo naquele que Ele enviou. No máximo cremos que Ele pode nos dar algo, mas não aceitamos e acreditamos que Ele mesmo se dá a nós. Reduzir a Eucaristia a um encontro para partilhar só o que temos, isto é, um alimento material, é cair na mesma tentação do povo alimentado pelos pães multiplicados: “Estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos”.  

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

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