Reflexão - XV Domingo do Tempo Comum - Mc 6, 7-13

“Quanto mais perto do Mestre, mais longe se vai.”

Depois de ter constituído o grupo dos 12 apóstolos (cf. 3,13), Jesus agora os envia em missão. Mais uma vez aparece no início da narração o verbo “chamar para perto de si” (grego: proskaléomai pros: para, kaleomai: chamar, convocar). Como esse verbo está no presente (histórico), evidencia-se, assim, além de dar vivacidade à narração, o aspecto permanente do chamado do Senhor para estar com Ele. Tal chamado não é pontual, mas constante e precisa se renovar sempre.  Para além de questões gramaticais, é mister sublinhar que Marcos, ao introduzir a narração do mandato missionário com esta ação de Jesus (“chamar para junto de si”), chama atenção para aquilo que constitui o fundamento e a eficácia da missão. Portanto, o enviado que se afasta do Mestre, perde a lucidez da missão, e a transforma em coisa sua, comprometendo a sua eficácia e moldando o anúncio de acordo com as exigências de situações e circunstâncias mundanas, enfraquecendo assim a proclamação do Evangelho que tem como objetivo o permanente e irrenunciável convite à conversão: “Os doze partiram e pregaram que todos se convertessem”.      
O mandato missionário confiado a duplas: “Começou a enviá-los dois a dois”, não diz respeito a uma estratégia de ação ou a uma dinâmica metodológica, mas ratifica o essencial da missão: o aspecto comunitário e a convicção de que os enviados não estão sozinhos, pois o outro me recorda que entre nós se encontra o Senhor: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, estarei no meio deles” (Mt 18,20). Na missão, o irmão não é apenas um companheiro que vai comigo para dividir tarefas, ou mesmo para ser um apoio moral, mas ele me é dado como sacramento da presença do Senhor, que não abandona ou fica distante dos que Ele envia.
 

 

 

 

 

 

 

 

 


O poder sobre os espíritos impuros (6,7) e a expulsão de muitos demônios (6,13) emolduram a narração do mandato missionário. Jesus dá autoridade (grego exousia), que é, antes de tudo, o enfraquecimento e destruição do domínio do poder do mal sobre as pessoas. Diz-se “espíritos impuros” (grego: pneuma akatharta), a impureza na Sagrada Escritura não é apenas de ordem moral, mas também está relacionada à participação do culto (espiritual). O anúncio do Evangelho inaugura o novo tempo, o tempo da proximidade de Deus que desfaz as barreiras que impediam as pessoas de se aproximarem Dele, pois eram colocadas à parte por causa da sua condição de pecadoras, doentes, pobres, etc. Jesus envia os seus discípulos para que libertem as pessoas dessa ideologia que as cerceava. 
Porém, antes mesmo de saírem para evangelizar, os próprios missionários são instruídos pelo Mestre: “Recomendou-lhes”, esse verbo faz parte do campo semântico cujo elemento comum é “evangelizar, evangelho” (grego: parengeleiv anunciar, ordenar, mandar, instruir). Portanto, os primeiros destinatários da Boa notícia são os próprios enviados. Eles só serão capazes de anunciar aos outros, se forem testemunhadas de que o Evangelho já os alcançou e mudou as suas vidas.
As recomendações de Jesus podem ser resumidas em 6 atitudes fundamentais para a realização da missão e que ainda são válidas para hoje:
“Não levar nada para o caminho (pão, sacola, dinheiro)”: confiança total na Providência, se não precisa levar pão, logo não há necessidade de sacola para guardá-lo nem de dinheiro para comprá-lo, Deus providenciará o alimento. Alimentar-se na casa onde será recebido favorecerá a convivência com os destinatários da missão, condição necessária para compartilhar a mesa como lugar da intimidade e do conhecimento. Isto, também, será uma marca distintiva entre os discípulos de Jesus e os discípulos dos fariseus que, por questão de escrúpulos, levavam consigo o seu alimento para evitar comer coisas impuras por onde se hospedavam.   
“Levar apenas um cajado”: confirmará a certeza de que Deus os conduzirá e não lhes permitirá que falte nada do essencial: “Teu bastão e o teu cajado me deixam tranquilo” (Sl 22,4). Bastão também serve para se defender; é claro que confiam em Deus mas não são ingênuos diante dos desafios, perigos que podem encontrar no caminho. Precisam assumir também a sua responsabilidade na missão.
“Andassem de sandálias”: as sandálias, além do seu aspecto funcional de proteção dos pés, também significam a proteção divina e o sinal de que os enviados não são escravos, mandados por um patrão despótico que os obriga a uma tarefa. Os evangelizadores devem anunciar com a sua vida a liberdade que marca profundamente a sua resposta ao chamado do Senhor para estar com Ele e enviá-los em missão. Ademais, as sandálias ajudarão na denúncia da rejeição dos missionários, pois eles deverão bater o pó a elas pregado. O simbolismo das sandálias batidas será mais dramático do que o simples bater os pés.   
 

 

 

 

 

 

 

 

 


“Não levassem duas túnicas”: literalmente “não vistais duas roupas”, aqui não tem o sentido de ter uma roupa de reserva, mas de não vestir-se superfluamente, mas apenas o necessário para a viagem e a permanência na missão. 
“Quando entrardes numa casa, ficai até a vossa partida”: o missionário não é um itinerante-borboleta que vai disseminando ideias bonitas de maneira superficial e fugaz, mas é na convivência que ele testemunhará a força do Evangelho: suas atitudes, posturas, modo de relacionar-se devem ser coerentes com aquilo que anuncia com palavras, e a verificação disso só é possível com o mínimo de convivência. 
“Se em algum lugar não vos receberem, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés”, o próprio Jesus dá o significado do gesto: “testemunho contra eles”. O anúncio do Evangelho não é neutro, nem muito menos acomodação aos gostos dos ouvintes a fim de que seja aceito. Isso seria traição e distanciamento do Mestre. Uma evangelização que se encaixa facilmente nos mais variados ambientes e que não provoca reações adversas é sinal de que o evangelizador se distanciou do Mestre e transformou o anúncio do Evangelho em ocasião de autopromoção ou conteúdo teórico com fins mercadológicos para vender seus produtos, o que é fruto apenas de suas capacidades e aptidões humanas.
O Evangelho é o grande anúncio de que Deus, por amor, nos salva em seu Filho Jesus, o seu Missionário por excelência. Acolher essa boa notícia é converter-se. Portanto, não é possível falar de uma evangelização inclusiva se não for apelo de verdadeira conversão cuja experiência fundamental é o encontro com o amor de Deus. 
A missão da Igreja não é fazer as pessoas entrarem no evangelho para transformá-lo à sua imagem e semelhança, tornando-o mensagem genérica aos moldes do politicamente correto, mas o grande desafio da evangelização é ajudar as pessoas a permitirem que o Evangelho entre no seu coração e na sua vida, o que é possível apenas quando os demônios (forças ideológicas que destroem valores e escravizam) forem expulsos e nos convertermos.      
  

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Igreja Católica Apostólica Romana.

Diocese de Limoeiro do Norte-CE.

A Pastoral da Comunicação desta diocese, mantém e atualiza este site com a colaboração das paróquias e seus responsáveis. 

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